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PORTUGAL REINVENTADO EM

RHODE ISLAND

I

    O Sol morno confirmava a proximidade do Outono, como que a namorar os primeiros somsos do Inverno, que em breve entrará por nossos corpos e almas adentro. Preparava-se meigo para a deita. exactamente a 5 deste Outubro, a sete anos do fim do século. Recordámos portuguesmente essa data histórica, entre amigos. Até porque entre nós se encontrava nosso amigo Medina, entidade consular desta área, a gozar patrioticamente o feriado de lá.
     Entretanto, aos poucos cá nos vamos preparando para o primeiro nevão desta Nova Inglaterra, que tanto pode acontecer antes, como depois do Natal. Aqui tudo é de esperar: desde as quedas bruscas de temperatura na ordem dos 30 graus F, em questão de horas, a nevões ou trovoadas, que se anunciam enquanto o diabo esfrega um olho. Tendo tudo isto em conta, preparamo-nos para o confronto com o Inverno, como forcado para enfrentar o inimigo na arena. Vai de armazenar comes e bebes, não vá o tempo, tal toiro traiçoeiro, pregar-nos alguma marrada sem esperarmos.
     Como para as almas criativas nunca houve nem haverá impossíveis, na falta do que temos, inventa-se o que gostaríamos de ter. Ou reinventa-se, introduzindo umas mudanças nas confecções e manufactura dos produtos para a boca, e também para a alma, que porventura estejam arredios nos nossos stocks existenciais. Por isso reinventamos e revivemos o que na memória ainda nos é querido. Assim aconteceu no dia descrito no primeiro parágrafo, quando um grupo de amigos se juntou na Adega do Zé, e o Zé sou eu, para fazermos uma pinga, com uva da Califórnia, que a do meu quintal foi pouca este ano.
     Porém, continua a ser imperioso reconstruir aqui, em terras do Tio Sam, o Portugal que deixámos atrás: nas ilhas, continente, ou ex-colónias portuguesas. O recurso ao fabrico da pinga para nos

 

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aquecermos no Inverno, mais não é que um salto ao passado, de que todos temos saudade: eu, meu cunhado Luís Mota, e meus amigos Dionisio DaCosta, Rogério Medina, Paulo de Carvalho e José Faustino. juntámo-nos. E suas respectivas esposas, claro, porque épreciso ver que estamos na democrática América. Portanto, nada de discrunínação, senao estará o bagulho entornado! E se mais não fazem parte desta seita saudosista e copofónica, é por falta de espaço nas instalações adegueiras. Trata-se duma garagem propriamente dita, que só o não é, porque em vez de canos sob seu tecto, guarda garrafões de vinho e aguapé! Sim... A ribatejana. e em honra do anfitrião, que exigiu o aproveitamento dos engaços até mais não!
     Foi uma tarde de festa rija. Meu filho Kevin, aos três anitos de idade, já se pode gabar de ter ajudado a fazer vinho aos homens. Era vê-lo em cima da carrinha do Luís. a tirar as uvas das caixas e a metê-las no esmagador manual, e às vezes a dar à manivela na operação de separar os bagos dos engaços, tarefa a cargo do Dionisio e da Judy, enquanto os outros elementos carregavam com baldes de plástico a caminho dos balseiros de igual material, que em Alcorochel se chamavam selhas, e eram de madeira. Eu e o Zé atiráíno-nos às arrumações e limpezas, porque tudo tinha de ser feito antes do Sol se deitar na sua cama para além do horizonte. Pelo quintal brincavam o David, e seus amigos Kyle e o Jay, estes sem grande interesse pelo que todos nós fazíamos em ambiente de algazarra, colorido sonoro tão português quanto o momento que todos víviamos, esquecidos de estarmos em solo americano.
     Terminadas todas as operações vinícolas da primeira fase, estava na hora de comer. As senhoras haviam preparado comida para os seus homens, à boa maneira portuguesa doutros tempos, o que quase ia dando em esturro. Só a Olga, a Virgínia e a Judy acabaram por comer connosco. Erro crasso, esse. Mas ficou logo decidido que para o envasilhamento seriam convidadas todas as senhoras.
     Tínhamo-nos esquecido que estamos de facto na América! Nós, os homens, entreolhámo-nos. Só cá para a gente: tivemos mesmo saudades de um certo Portugal... disse um do grupo. Pois e. Mudam-se os espaços, mudam-se as realidades.
     É a democracia. E esta, diga-se, é muito bonita.

 

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PORTUGAL REINVENTADO EM

RHODE ISLAND

 

II

     Enquanto andava envolvido em toda aquela azáfama, não pude deixar de recuar aos meus tempos de menino. Vi claramente na memória o lagar de vinho do meu avô Manel, ao cimo da ladeira do Oiteiro, em frente de um seu outro, o do azeite. O do vinho pegava com o celeiro, e no seu lugar nasceria o prédio que hoje lá existe. Faz esquina com a propriedade que então era da Elisa Fazenda estremada pelo caminho da escola, que a poente confrontava com aquele pedaço de terra, de meu tio Joaquim Brites, o regedor, e ia desde a cabine eléctrica até à escola dos rapazes. Por trás dos referidos celeiro e adega, o José Vaz Brites Nobre construiria anos depois a sua residência.
     Porque meu avô possuía grandes vinhas: Comeira, Casal da Charneca e Pedregosa, o lagar, que talvez levasse de duas a três pipas, se não mais, era cheio algumas vezes. O carro de bois, que era dele, chegava carregado, uma doma enorme. Descarregava directamente para o lagar, à forquilhada, sobre uma passadeira ou tabuleiro de lata zincada em forma de canal. Este assentava na doma e janela do lagar, centrada ao meio deste, do lado da estrada. Deixava-se o lagar a pouco mais de meio, porque durante a fermentação quase ficaria a transbordar. Eu ajudava na operação do pisar, na sua fase primeira; pequenito que era, ficava enterrado até quase ao pescoço. Só anos mais tarde, quando meu tio António fez lagar na casa que então era de meus avós maternos, eu podia pisar uvas com os homens, alguns pouco mais altos que eu.
     Quando meu pai fez lagar, no que havia sido o celeiro dos mesmos avós, passei a exercer a actividade oficial de pisador de uvas. Quando chegava da Escola Industrial, meu pai mandava-me lavar os pés e meter-me à faina com os homens, dois ou três dias apenas, mas o suficiente para atintar as pernas. Depois ajudava a envasilhar, cabendo-me encher as quartas de almude, com um caneco de lata, de dentro do pequeno depósito no chão, para onde

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escorria o vinho do lagar por um tubo de ferro. Contrariamente àprensa que usámos aqui em Rumford, um cincho de 25 centímetros de largura e quarenta de altura, a prensa dos lagares de Alcorochel, se bem que manuais, eram enormes dispositivos apropriados, apoiados num fuso central. Rodas e trincos, movidos por dois. quatro, seis homens, puxando enormes alavancas, ao compasso de: ópe, ópe, ópe. Até se espremer tanto quanto as forças o permitiam, assim como os cepos, a tampa de madeira, e o êmbolo; adufa lhe chamavam também, se a memória me não trai.
     Havia quem tivesse cinchos aí de metro e meio de diâmetro e um de altura. Quem não tinha esse equipamento, fazia um círculo em volta do fuso sobre o qual estava montada a prensa. Depois de espremido, cortava-se com um machado o círculo alinhado com o tampa ou êmbolo; desapertava-se tudo, metiam-se os excessos cortados sobre o monte solidificado, e voltava-se a espremer. Depois de tudo bem espremido, se desfazia o círculo de bagulho e engaços, e se lhe metia por cima uns almudes de água e remexia, até voltar a ferver. Só depois se repetia a operação com a prensa, saindo então a célebre aguapé tanto ao gosto ribatejano.
     O nosso envasilhamento americano teria lugar no dia 11. Desta experiência bem portuguesa em terras americanas, se lembrarão um dia meus filhos, que quero que digam que, se bem que seu pai respeitasse a América onde foi alguém e se educou, soube gozar Portugal neste solo, por onde passaram os Corte Reais no século VI de barco, e chegaram de avião alguns dos Brites no século XX. Quanto ao resto, é aguapé que esperamos abrir pelo 5. Martinho, com castanhas assadas, dia em que os americanos celebram o seu Veterans Day. E nós também. Somos biculturais.
     Quanto a nós, os veteranos da pátria lusa, resta-nos dizer que enquanto houver uvas da Califórnia, Portugal existirá. Em nós, quanto mais não seja. E nos nossos, oxalá. Uma herança étnica que muito os honrará, na iminência desastrosa do total rnelting pot dum país sem identidade própria, de deserdados, de muitos teres e iguais carências, em que a desidentificação a ninguém orgulhará.
     Se não temos orgulho nas nossas origens, em que teremos então, numa terra de todos e de ninguém?
     Viva a aguapé e a Adega do Zê! O resto, são castanhas.

 

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