my email jbbrites@lycosmail.com
 2004 East Providence RI
ANTóNIO MEDEIROS
Recordar um amigo e grande cantador do desafio Por: José Brites
António Medeiros nasceu a 15 de Janeiro de 1945, em Santa Bárbara, Além-Capelas, S. Miguel, Açores. Chegou aos Estados Unidos em 1970, e de Fall River, MA, partiu para a eternidade às 8:30 da manhã do dia 15 de Outubro de 2005. O Medeirinhos, como alguns cantadores e outros amigos tratavam com ternura, viveu assim a maioria de sua vida em terra alheia, a terra do Tio Sam que o acolheu, e ele escolheu também como sua. Deixa esposa, Helena Medeiros, dois filhos e uma filha, assim como muitos familiares na América do Norte e Açores. Conheci o António em 1999, e ouvi-o cantar pela primeira vez a 11 de Abril do mesmo ano. Ano em que, alías, ouvi pela primeira vez na minha vida verdadeiras cantigas ao desafio. Em 2000 publicaria o meu primeiro livro de recolha de cantigas ao desafio, intitulado CANTIGAS AO DESAFIO NA DIÁSPORA, edição da Peregrinação Publications, uma colectânea de cantorias completas recolhidas in loco na Nova Inglaterra. O António Medeiros abre esse livro com uma cantoria entre ele e José Gaudino, este também micaelense e a residir em Taunton, MA. Cantoria essa que teve lugar nos Amigos da Terceira, em Pawtucket, RI. Nesse livro anotei então alguns dados biográficos sobre ele, e fiz uma pequena análise da sua arte do improviso. Tocaram para os cantadores nessa noite, Luís Rodrigues Melo, violão, e José Luís Melo, guitarra portuguesa. Depois da edição dessa obra, conjuntamente com o cantador José Plácido (outro micaelense residente em Fall River), editaria através da mesma editora mais seis livros de cantigas. E o António Medeiros em todos está representado, quase sempre com cantorias completas, e mais, visto também me ter facilitado poemas da sua autoria, os quais foram igualmente publicados nalgumas dessas obras. Mas confesso que foram a sua simplicidade e amabilidade que permitiram o desabrochar de uma amizade rápida entre nós. Igualmente é-me grato dizê-lo, que o António e sua esposa sempre estiveram presentes nas minhas festas de S. Martinho, na Adega do Zé, local de sagradas e sãs amizades. A última vez que o António esteve neste meu convívio anual foi em Janeiro de 2004, antes da doença o martirizar. Essa presença foi por sinal documentada e divulgada globalmente pelo programa Contacto, da RTPi, que de New Jersey veio para este efeito, (a abertura da aguapé), e para filmar uma cantoria que no dia seguinte teve lugar no Clube Santa Maria, East Providence, RI. Na noite da adega o António cantou o desafio com o José Custódio e o Gilberto Sousa, e ainda cantou o fado. E teve a honra de ser acompanhado por grandes músicos: Dionísio DaCosta, Francisco Resendes, Nuno Puim e José Luís de Medeiros, este um dos guitarristas das cantorias de hoje e que muito acompanhou o António em cantorias oficiais e privadas. Na noite seguinte à abertura da aguapé, na cantoria a que dei o nome de Primeira Guerra de Cantigas ao Desafio, esteve de novo o amigo António, que nunca falhava às nossas iniciativas culturais, fossem elas cantigas ao desafio, ou cantigas de veteranos de guerras que também organizei durante alguns anos. Não sendo cantador convidado para cantar nestas, pois não era veterano de guerra, o Medeiros não deixava de ir a esses convívios, e cantava sempre a desgarrada final com os “cantadores guerreiros”, chamemos-lhe assim. Porém, a última vez que ouvi o António Medeiros cantar foi a 17 de Abril deste ano. Estava então já muito debilitado, mas mesmo assim não quiz faltar à Segunda Guerra de Cantigas ao Desafio, no mesmo Clube Santa Maria. Aí fez por sinal uma cantoria maravilhosa com José Plácido, cantoria essa que felizmente ficou gravada para a eternidade em vídeo, CD e DVD. Mesmo de precária saúde, o António cantou estoicamente. Mostrou como sempre a sua veio poética, e a sua sensibilidade humana que tanto tocou os presentes sobretudo ao focar a fim da vida que sabia aproximar-se. Recordo hoje com saudade - dois dias após a sua despedida de entre nós, o Amigo António Medeiros, que vi pela última vez em sua casa no seu leito de morte, a 2 de Outubro do corrente mês. Altura em que me fez o favor de oferecer duas lindas quadras, as quais oferecerei ao público no meu próximo texto sobre este grande cantador, folião, poeta popular e romeiro, (chefe dos romeiros de Fall River), sobre o qual tenho tanto para dizer. Por sinal a última visita que lhe fiz, para além de passar um tempinho a visitá-lo, foi na missão de cumprir uma promessa que lhe havia feito dias antes no Hospital de Santa Ana, em Fall River. Aí lhe prometi oferecer o CD de música de inspiração cristã de Dionísio DaCosta que estávamos promovendo, o qual iroricamente seria lançado no mesmo dia que o António Medeiros viria a falecer. São destas coincidências inexplicáveis. Por agora deixo-vos este poema em quadras que ele escreveu já então de volta com a doença, e que me ofereceu há cerca de um ano para um dia eu utilizar num livro. Mas aqui fica antecipadamente na hora da sua partida, esta reflexão poética sobre o seu estado de saúde e o percurso da sua vida. Descanse em paz, Amigo António Medeiros. E OBRIGADO pelo seu legado à língua, cultura e tradições populares portuguesas. Podem ser vistas algumas fotografias de António Medeiros no portal da Peregrinação, www.portuguese-books.com | FOI ATRAVE’S DO PECADO (Escrito no hospital)
António Medeiros
Do pecado fui gerado Por um amor tão profundo Foi através do pecado Que vim para este mundo.
Levaram-me a baptizar Como na doutrina diz Para eu poder ficar Sem o pecado que não fiz.
Subi na vida cantando Mas agora na descida Vou muito triste chorando Com saudades da subida.
Vou descendo lés a lés Numa enorme corrida Sem conseguir pôr os pés Onde eu os pus na subida.
Sou diferente do atleta Eu vou correndo com medo Quero atingir a meta Mas não quero chegar cedo.
Eu quero ir devagar Com este medo imenso Por causa de não chegar Mais cedo do que eu penso.
Meu desejo é descansar Estar um pouco em paz Mas eu não posso parar Nem posso voltar atrás.
Minha vida certamente Nunca foi toda perfeita Andei para trás, para a frente Para a esquerda e direita.
`As vezes vou a pensar Na vida que já vivi Sem poder recuperar Nada do que já perdi.
Perdi minha meninice E a minha juventude E sem chegar à velhice Estou perdendo a saúde.
Meu Deus que cruz a minha Que não alivia nada Em vez de ser mais levinha É cada vez mais pesada.
`As vezes quase desmaio O peso da cruz é tanto Estou a ver quando caio E nunca mais me levanto.
Sinto o coração bater Já não é um bater certo Parece que estou a ver O fim a ficar tão perto.
Estes sofrimentos meus Enquanto vida tiver Entrego nas mãos de Deus Deus faça o que quiser.
A vida é tão pequena E mais larga que comprida Que até não vale a pena Fazer as contas à vida. |