Título: Comunidades/EUA: Portugueses no Vietname em livro de "emoções" e

"traumas"

*** Por Ana Folhas de Oliveira, da Agência Lusa ***

Lisboa, 29 Mar (Lusa) - Portugueses no Vietname é o nome de um livro que

revela emoções, medos e traumas de emigrantes que, por estarem radicados nos

EUA, combateram e fisicamente "sobreviveram" à guerra que ainda hoje não os

deixa dormir.

Eduardo Mayone Dias, professor, e Adalino Cabral, ex-combatente, também

residentes nos EUA, assinam a obra com publicação inicialmente prevista para

Abril, mas que o vazio de apoios fez adiar para Novembro, apadrinhado pela

editora luso-americana Peregrinação Publications.

Pela primeira vez são revelados testemunhos de portugueses que combateram na

guerra do Vietname, incluindo o próprio depoimento de Adalino Cabral, mas em

forma de prefácio.

O livro, feito de conversas e cenários de guerra, mostra 16 depoimentos

recolhidos pelos autores ao longo de vários anos e que acabou por se

transformar num trabalho que na realidade começou com a guerra vietnamita.

Histórias de horrores, medos e traumas que ficaram para sempre são contados

na primeira pessoa com Mayone Dias e Adalino Cabral a tentarem ser fiéis ao

discurso oral, para "proporcionar ao texto a maior naturalidade possível".

Testemunhos de portugueses residentes nos EUA, uns açorianos, outros

continentais, e que, num acto de coragem, aceitaram "regressar" ao Vietname

e enterrar naquele livro a sensação do iminente perigo de morte.

Os autores, em entrevista à Agência Lusa, revelam o que sentiram, quando, de

gravador na mão, se puseram a recolher histórias de Portugueses no Vietname,

recuando no tempo para o explicar.

Mayone Dias chegou aos EUA nos últimos dias de 1961 e a guerra do Vietname

começava a esboçar-se. Foi colocado como professor de Português numa escola

de línguas do Exército, acabando por ter, como afirma, "oportunidade de

presenciar a tensão do momento, a febril actividade com que se preparava o

envio de elementos militares".

"A guerra avolumou-se. Mas foi só de longe, em cenas de televisão, que

presenciei o seu desenrolar. Foi necessário que tudo terminasse, que

transcorresse um período de maturação para me dar verdadeiramente conta das

apocalípticas proporções do que aconteceu", relembrou.

Para isso, explicou, contribuíram inúmeros livros e filmes, a comparação

com as guerras coloniais portuguesas, as conversas com alunos que tinham

passado pelo Vietname e a emocionada leitura que fez de poemas de um deles,

que a explosão de uma mina tinha horrivelmente mutilado.

Ao fixar residência nos Estados Unidos foi obrigado, como todos os outros

emigrantes do sexo masculino, a registar-se nos serviços de recrutamento e

ao fazê-lo afirma ter sentido "uma longínqua apreensão em vez de receio. Já

para lá do meio da casa dos trinta, não seria provável que os EUA me

recrutassem", disse.

Por outro lado, sublinhou "a análise de situações de guerra sempre me tinha

interessado, apesar de nunca ter envergado uniforme militar, ou disparado um

tiro ou sequer uma espingarda nas mãos".

O mesmo não aconteceu com Adalino Cabral, o outro autor, muito mais jovem,

que se ofereceu para a Força Aérea, com a esperança de ser colocado nos

Açores, mas acabou no mato do Vietname, em serviço de ligação com o

Exército.

Dos 16 testemunhos, 14 foram recolhidos por Adalino Cabral sem contar com o

seu próprio depoimento em forma de prefácio.

"Cada entrevista foi outra guerra de almas penadas. Ao contar as suas

experiências, os ex-combatentes sofreram e, naturalmente, eu também", disse.

No papel de entrevistador Adalino Cabral referiu ter passado por 14 guerras,

reviu-se em algumas situações e de uma forma geral identificou-se com todas

elas.

"Cerca de 60 mil indivíduos morreram no Vietname e mais de dois mil ainda

não regressaram ao torrão dos EUA. Cerca de 200 mil suicidaram-se devido à

guerra, durante ou depois do teatro de operações no Vietname. E mais de três

milhões de vietnamitas perderam as vidas naquela tão vinagrosa guerra que

parecia nunca ter fim", lamentou o ex-combatente.

Por isso, frisou, "para os combatentes da guerra do Vietname a luta

terminou, mas a guerra continua...nas suas cabeças".

Enquanto Adalino Cabral servia os EUA no Vietname, a guerra absorvia Mayone

Dias pela via literária, embrenhando-o em várias narrativas sobre aquele

conflito, frisando que leu quase tudo o que podia encontrar.

"Sinto-me agora à vontade com o vocabulário e as circunstancias deste

conflito. A gíria dos soldados, aprendida em páginas de ficção, já soa

familiar", disse.

Por isso, justifica, não estranha que esporádicos contactos com portugueses

nos EUA, que combateram no Vietname, "catalisassem o interesse por fixar no

papel as suas experiências e emoções".

"Foi uma guerra com presença portuguesa e onde cerca de 100 militares com

sobrenomes portugueses por lá tombaram para sempre", lamentou.

Nesse sentido, sublinha, "pareceu aos dois autores, residentes nos EUA há

longos anos, que seria valioso reunir testemunhos de outros emigrantes

portugueses que tivessem servido a pátria adoptiva na Guerra do Vietname".

E para além dos traumatismos a que está sujeito qualquer combatente, os

autores tentaram determinar, nestas entrevistas, o grau de identificação

sentidos pelos emigrantes portugueses ao serem incorporados nas forças

armadas norte-americanas, com ideais do país de acolhimento.

Segundo Mayone Dias, foi ainda objectivo perceber junto dos entrevistados

como é que uma (im)possível rejeição ao recrutamento se poderia "coadunar

com a lealdade à nova nação, que na maioria dos casos, uma fria ordem

oficial os mandava defender".

"Também tentámos saber até que ponto o sentido de dever os motivaria. E como

reagiram quando se viram envoltos numa guerra distante, onde o perigo os

cercava a cada momento", frisou à Lusa.

Tudo isto está no livro e, como exemplo, aquele autor aponta o caso de

Amilcar Cerejo, natural de Leiria, que emigrou para a Califórnia com 16 anos

e que, por heroísmo numa acção de combate no Vietname a 21 de Março de 1967,

recebeu uma medalha de Bronze. Nessa acção foi ferido, tendo contudo

continuado a combater.

Treze meses no Vietname foram suficientes para perceber que lá já não era

português, precisava diariamente de tentar salvar a vida e matar... andava

lá por andar.

Quando regressou aos EUA, o choque foi ainda maior porque, como testemunha

no livro, sentia medo de si próprio, "com ideias a fugir para dentro" e as

noites passadas a tentar salvar o sono.

Para Mayone Dias, foi uma conversa impressionante, uma vez que a reacção

daquele combatente aos eventos "revelou-se muito emocional", admitindo até

ter ficado angustiado porque Cerejo pôs "muita intensidade na descrição dos

sintomas do stress pós-traumático de que passou entretanto a sofrer".

Este testemunho, sublinha o autor, ilustra atitudes manifestadas por outros

entrevistados, como o inesperado da morte, a "calada revolta da hostilidade

com que os antigos combatentes foram muitas vezes recebidos de regresso aos

EUA e a impotência perante ordens insensatas dos superiores".

"Também me impressionou o sentido de dever que os entrevistados expressaram.

Foram para a guerra virgens de qualquer ideologia, sentiram a obrigação de

cumprir o que o novo país lhes pedia, obedeceram como antes haviam obedecido

ao patrão. Era mais um trabalho que havia que fazer", disse à Lusa.

Todos os entrevistados são, na sua maioria, oriundos de ambientes rurais,

chegados à América do Norte na adolescência e apanhados pela guerra do

Vietname entre os 19 e os 22 anos.

De volta todos refizeram a sua vida, vários terminaram cursos

universitários, um obteve doutoramento, mas isso não exclui que o quanto

ainda sofrem de stress pós--traumático de guerra e isso está patente no

livro.

Uma obra que, diz Mayone Dias, não é sua: "tudo o que fiz foi empregar

tesoura e cola para a organizar. O meu trabalho foi sobretudo transcrever,

traduzir as entrevistas, que foram feitas em inglês, e organizar as notas".

O livro levou cerca de dez anos até ficar pronto, tendo encalhado numa

editora das Caldas da Rainha que, refere, "nunca atou nem desatou, até que

decidimos contactar a Peregrinação Publications, que agora o vai publicar".

Para além da publicação, a editora está também a preparar um

convívio de veteranos lusos de todas as guerras, para 18 de Novembro de

2000, no Centro Comunitário Amigos da Terceira, em Rhode Island.

Durante esse convívio será então lançado o livro Portugueses na Guerra do

Vietname, no fundo uma colectânea de 16 conversas ilustradas com mais de 60

fotografias.

AFO
Lusa/Fim